No âmbito do Dia do Pescador que se celebra a 31 de Maio, 20 anos depois de ter sido instituído por Resolução do Conselho de Ministros em 1998, Nuno Nobre andou pela LX Factory a descobrir pesqueiros à mesa com sabor a mar português na restauração local, uma das indústrias de destaque nesta fábrica de experiências criativas, outrora ocupada em 1846 pela Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense e um dos mais importantes complexos fabris de Lisboa.

À entrada da ilha criativa, do lado esquerdo, encontra-se a Cantina LX. O restaurante nasce do espaço das antigas instalações da gráfica Mirandela, que também ocupou o complexo nos anos subsequentes, reabilitado através da utilização dos móveis e equipamentos da cantina original. Antonieta, a cozinheira, destaca na carta do seu espaço o molusco Polvo confeccionado “à lagareiro”, a única estrela marinha de um menu com inspiração nas tradições portuguesas onde o forno a lenha é o grande protagonista.

De seguida, na avenida principal, encontramos A Praça, um espaço amplo com esplanada bem frequentada e que este mês celebra 4 anos. Liderado pelo chef Pedro Carranca, o restaurante oferece num ambiente descontraído, pasta fresca Italiana, petiscos e a especialidade da casa, o bife com molho de pesto. Um conceito de fusão de cozinha Italiana e Portuguesa com uma modesta oferta de mar protagonizada pelo choco e atum.

Neste périplo em modo Menu-Paper vê-se de tudo: hambúrgueres, salsichas com nomes de raças de cães, bolos, quiches, tartes batizadas com a identificação da avó ou da tia, chocolates, café e outros conceitos do “fast food” ao “fast good”. Num dos olhares casuais, dois cozinheiros apressados de método a fazer preparações no Central da Avenida, um restaurante cheio de latas na montra do balcão. “É domingo e não podemos abrandar”, exclama um deles. No menu, por opção, não constam pratos de peixe ou marisco frescos, só conservas. Enguia, sardinha, carapau, cavala, petinga, em azeite, picante ou com molho de tomate, representam séculos de sabores e saberes dos portugueses pelos mares, desde o interior das latas da Comur, empresa da indústria conserveira inaugurada em 1942 na Murtosa, até aos pratos que servem aos clientes.

Já no Rio Maravilha, restaurante de onde melhor se avista o Tejo pela profundidade de qualquer das janelas viradas para ele, recorda-se o palco de tantas pescarias protagonizadas por nativos da cidade, mesmo os que nem gostavam de peixe, que se acumulavam na margem lisboeta para matar o vício ou entreter “a minhoca no anzol”. Era o caso do meu colega António Frias de 58 anos, que frequenta o seu pesqueiro de eleição junto ao Museu da Eletricidade há mais de 40 anos, um mestre a apanhar as célebres corvinas de Lisboa. “A maior que apanhei tinha 38 kg, nunca tinha visto nada assim, palavra de pescador” diz-me sorrindo sempre que falamos no tema. Hugo Dias de Castro, o chef do Rio Maravilha, não confecciona corvina. Na sua cozinha, com uma das melhores vistas da cidade, desfilam a garoupa, berbigão, vieiras e atum que inclui dia-a-dia no seu menu.

Maresia também é o cheiro que se sente à entrada do 1300 Taberna do chefe Nuno Barros, que há 7 anos continua aos comandos do restaurante que surpreende pelo menu contemporâneo, carta de vinhos e claro, pelo espaço vintage a condizer com os vizinhos na LX Factory. As propostas são muitas e a sazonalidade de produtos impera. Este é o único restaurante, em 23.000 metros quadrados de fábrica, que valoriza o mar português e o melhor que ele nos dá. Da ria formosa chega a salicórnia, algas frescas de ílhavo, cherne e atum selvagem dos Açores e lingueirão do sul para perfumar o afamado arroz. Da cozinha organizada e semi aberta para a sala, serve-se também pregado, corvina, polvo, choco, ovas de peixes e até ouriços-do-mar (de setembro a abril).

Não se pode dizer que a pesca à mesa foi fraca, mas no meio dos restaurantes instalados na LX Factory, poucos são os que diariamente reconhecem a importância do papel desempenhado por estes e o seu contributo decisivo que dão para a evolução do nosso país. Talvez se deva homenagear, procurando aumentar a presença de produtos do mar português nos menus da restauração, os pescadores e suas comunidades, cidades e vilas das zonas costeiras.

O engodo está lançado na fábrica onde se torna possível intervir, pensar, produzir, apresentar ideias e produtos num lugar que é de todos, para todos. Pescadores idem.